Estava eu, grávida, feliz e curtindo minha gestação da melhor maneira. Novos hábitos, saúde, me sentia linda, tranquila, fervilhando emoções e me centrando naquele momento único de gestação.

Trabalhei muito nesta época, estava super ativa, finalizando minha pós graduação e absorvendo milhões de informações sobre parto, maternidade, o desenvolvimento do bebê, tudo o que me rodeava naquele momento. Mas, justo eu, jornalista estava no caminho das fontes duvidosas.

Meu pré natal transcorria muito bem, logo no início troquei de médico porque achava que o meu GO não pedia tantos exames e, poxa,  eu queria ver, sentir, escutar tudo o que acontecia dentro da minha barriga, apesar de estar tudo maravilhosamente bem. Procurei uma médica, na esperança de que a cumplicidade feminina respeitasse meu protagonismo, já que meu desejo desde o início era ter um parto “normal”.  Não! Eu não sabia exatamente as diferenças sobre os tipos de parto, só tinha a certeza absoluta de que não queria cair em uma cirurgia, a menos que houvesse um bom motivo para violar meu templo, o meu corpo.

A médica sempre insistia na questão de que eu estava engordando muito, insistia muito neste aspecto e isso me incomodava, já que eu fazia acompanhamento com uma nutricionista e a opinião dela era totalmente contrária, ela dizia que eu estava ótima, havia perdido gordura corporal com a reeducação alimentar e minha bebê se desenvolvia perfeitamente. Enfim, pensei que ela devia falar isso para todas, para evitar exageros. Em toda consulta eu reforçava minha escolha pelo parto normal e ela sempre dizia que estava tudo correndo bem para isso.

Lá pelas 30 semanas de gestação, encontrei o blog de um grupo de apoio ao parto, pós–parto e amamentação em São José dos Campos, a Roda Bebedubem, haveria um encontro onde os pais iriam relatar as suas experiências diante do nascimento dos filhos. Achei uma oportunidade legal para envolver ainda mais meu marido, Lucaz, que já estava sendo muito participativo e companheiro na gestação. Marquei na agenda a data do encontro, o convidei, ele topou, nós fomos.

Domingo lindo, manhã ensolarada e estávamos lá. Eu carregando Amora na barriga, ele me apoiando. Na sala, uma roda, gestantes, seus companheiros, mães com seus bebês, crianças reluzentes, uma energia receptiva. Experiências lindas foram sendo relatadas, algumas histórias de partos que não ocorreram da forma desejada, como os pais absorveram aquilo, outras histórias maravilhosas de partos naturais, partos domiciliares, a vida sendo trazida ao mundo de forma sensível, sutil, iluminada. Era tudo o que eu precisava ouvir! Sim, era possível. Se todas aquelas mulheres foram capazes, eu também era. Olhei para o lado, Lucaz ouvia tudo atento, olhos brilhantes e coração aberto. Saímos de lá e eu, sem dizer uma palavra, recebo a maior cumplicidade que poderia ganhar.

É isso que temos que buscar!”, afirmou meu amor com toda sua convicção. Meu coração explodiu de satisfação.

Bom, com toda aquela carga emocional que recebemos, fui buscar mais informações sobre o parto natural. Conversei com Flavia Penido, coordenadora da Roda Bebedubem, que me passou algumas informações sobre a equipe que poderia acompanhar um parto domiciliar. Busquei informações com uma mãe que acabara de parir seu bebê em um parto hospitalar, era Sibely Barros Aidar, que me relatou todos os detalhes do nascimento de seu Matteo e o contato de sua doula, Débora Diniz. Marquei com a Kátia Zeny, enfermeira obstetra, uma conversa, fomos lá, eu e Lucaz, abertos a um novo mundo. Mal sabia eu que estas pessoas seriam essenciais para uma mudança de rumos e descobertas em minha vida. Sou muito grata a todas estas mulheres.

Absorvemos todas as informações e chegamos à conclusão de que para esta gestação estávamos mais seguros optando por um parto natural hospitalar e acompanhados por uma doula, que seria Débora.

Eu já estava com 32 semanas de gestação e, após ter acesso a tantos relatos e informações, não havia nada que levantasse a hipótese de que aquela médica acompanhasse um parto normal. O grande teste seria apresentar a ela o meu plano de parto, onde eu descrevia todas as minhas escolhas. Sem cerimônias, ela disse, assim que viu o papel – ela nem se dispôs a ler; que achava tudo muito legal mas que não faria porque não compensava ter que esperar horas a fio meu trabalho de parto. Ela só faz cesárea. Ponto final.

Sai de lá não surpresa, mas indignada com tal realidade. Fiquei aliviada, pelo menos ela foi honesta naquele momento e poupei-me de uma desnecessária. Mas, fiquei muito intrigada. Até quando ela me levaria em banho-maria dizendo que estava tudo transcorrendo bem e no final me empurraria pra uma cirurgia?

Liguei imediatamente para aquele GO que não pedia exames, e que eu fugi no início da gestação, lembra? Pois é, o mundo dá voltas e eu soube que ele era um dos únicos médicos da região que acompanha partos normais e inclusive é aberto ao acompanhamento da doula, César Damasceno. Marquei a consulta para o mesmo dia e fui extremamente bem recebida.

Aliviada, minha luta só começava. Agora, o próximo passo era defender minhas escolhas sobre os procedimentos realizados com o bebê. Entrei em contato com a pediatra responsável pelo atendimento neonatal na maternidade, ela marcou uma conversa comigo e lá fui eu, buscar um nascimento respeitoso para Amora. Já estava com todas as evidências científicas na ponta da língua para tentar justificar alguma escolha, me protegendo de um possível sermão direcionado para a mãe hippie louca naturalista. Mas, ao contrário do que eu imaginei, a médica, Dra Mônica, foi super solícita e me disse uma frase que marcou demais a busca pelo meu parto:

é um absurdo termos que marcar uma conversa para discutir o óbvio em relação ao nascimento de um bebê”. Entendi absolutamente o que ela quis dizer.

Bom, passaram-se os dias, semanas e com 41 semanas e 1 dia, os sinais do TP começavam. Durante toda a gestação eu havia dormido bem, não tive grandes problemas, mas aquela noite foi diferente. Estava estranha, levantei algumas vezes para ir ao banheiro e lá pela madrugada comecei a sentir uma cólica fraca que já me dizia alguma coisa, parecia uma dor de barriga. Estávamos passando por um período difícil, a avó de Lucaz precisando de nossa atenção, ele iria bem cedo enfrentar a fila do SUS com ela e isso estava nos angustiando. Pensei que a ansiedade sobre aquele momento poderia ter causado o mal estar e também não quis preocupá-lo, para que não perdesse a consulta.

Lucaz saiu de casa às 5 horas, eu já estava acordada desde as quatro, partiu e deixou o alerta de que era para comunicá-lo sobre tudo. Concordei e fiquei em casa, continuei na cama por algum tempo, levantei, tomei meu banho, fui ao mercadinho perto de casa comprar algumas coisas, caminhei um pouco. Sabia que a hora estava próxima, mas não queria preocupar Lucaz. Lá pelas 9 horas ele me manda uma mensagem dizendo que a espera seria longa no hospital e que achava que ficaria lá por muito tempo ainda. Avisei que estava tudo bem, mas que a hora estava chegando. Não conseguia sentar, descansar, nada. Meu corpo pedia para se movimentar. 12h e Lucaz chega, ufa, que alívio. Ligamos para nossa doula, e ela veio pra casa, me fez um escalda pés e disse que ainda eram os pródromos, sugeriu que eu entrasse embaixo do chuveiro para verificar se as contrações iam parar. Dito e feito, os espaços entre elas aumentaram. Débora voltou pra casa dela e ficou de prontidão.

Sexta de outono, lá pelas 18h as contrações entraram num ritmo, Débora volta e começa minha viagem e de Amora ao mundo novo.

Eu havia lido um estudo que relacionava a abertura da boca, com a vagina e isso se tornou muito consciente nesse momento, desde o início vocalizei meu TP. Minhas contrações vinham, uivos, gemidos e sons saiam de minha boca, como se eu precisasse expulsar todas as sombras acumuladas até então. Eu precisava estar limpa, aberta para receber minha filha. Assim foi.

Meu corpo pedia movimento, pedia energia, queria vivenciar essa força do parto. Hoje eu percebo que eu curti cada contração, cada onda de dor, cada sensação. Foi tudo muito intenso e vibrante.

Observei Lucaz em alguns momentos. Seus olhos brilhavam, estremeciam a cada manifestação minha. Ele estava comigo e era só isso o que eu precisava.

Banho quente, chá, massagens, movimentos na bola, rebozo amarrado na escada pra eu fazer força pra baixo, a brisa, o chão, meus pés no chão… A doula! Foi tudo tão essencial e providencial. Foi tudo lindo e sentido. Vivenciei a dor, a dor de parir, a dor de morrer filha e nascer mãe.

Lá pelas 24h resolvi ir para o hospital. Lá, já entrei para a sala de parto, as luzes foram diminuídas, resolvi ir para o chuveiro novamente… Estava com 7 cm de dilatação e as contrações estavam mais longas. Como um sinal de limpeza, começo a vomitar, lembro que a Débora me disse que aquilo era bom. Era a manifestação de que meu corpo estava se limpando, funcionando, ativo e alerta, assim me entreguei.

Ali, ainda houve muita entrega. Lá pela madrugada lembro de estar envolvida com todo o processo do meu corpo e olhar para o lado, ver Lucaz cochilar e pensar: “Sou eu e você, filha. Vamos juntas fazer esse mundo novo acordar.”

A dilatação após a chegada ao hospital foi mais lenta, normal, o ambiente, a pressão de estar em um hospital influencia no desenvolvimento do trabalho de parto. Lá pelas 4h minha bolsa estourou, já estava com uma dilatação maior e lembro de um olhar duvidoso do médico. Vi ele comentar algo com Lucaz e Débora, senti que ele já tinha colocado o relógio para funcionar… Então, me concentrei mais, entrei ainda mais na vibe da partolândia. A Débora fez algumas manobras com o rebozo para ajudar Amora a descer, eu comecei a conversar mais com ela, pedindo pra ela vir, que já estava tudo pronto, que eu estava pronta para recebê-la. Lucaz estava ali, me sustentando, me auxiliando, expectador da natureza e da chegada de vida, continuidade das nossas, do nosso amor.

A energia nesse momento é tanta que só sentia o meu corpo, nada além disso. A Terra me chamava, estava de cócoras, meus pés pareciam colados no chão, os puxos me levavam a essa força. Era Amora, vi a cabecinha dela coroando, senti sua chegada, inacreditável… Foi lindo, emocionante, vibrante. O círculo de fogo queimou, 6h45 Amora nasceu, deslizou para o mundo, veio para meus braços me aquecer, brilhou seu olhar para mim, ao ouvir a voz de seu pai, procurou o peito. Esperta, lúcida do que acontecia, sim, do jeito dela, como ela sabe, na hora certa, nasceu!

Não existem palavras que descrevam o que foi tudo aquilo para nós. Realmente, o mundo parou, as vibrações do mundo estavam ali. Vendo minha placenta, percebi o quanto o segredo da vida é sedutor, reluzente, dono de uma cor única, um cheiro indescritível e uma energia inabalável.

Hoje, pra mim, é inaceitável que roubem este momento de uma mulher. Eu quase tive essa transformação roubada de mim, por simples desconhecimento, capricho, comodismo? Não sei. Só sei que hoje, posso dizer que renasci há 1 ano. Me tornei uma pessoa melhor, em busca de dignidade, respeito e amor. Sou doula, ativista, continuo jornalista, e pretendo continuar lutando pra que mulheres e bebês sejam respeitados no momento mais importante de suas vidas, o óbvio, o nascimento.

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