A conexão sutil entre mãe e bebe, fluidos, olhares, toques e cheiros…

Livre Demanda e Auto-regulação

Por Flavia Penido

1-Como e com que frequência devo amamentar meu bebê?

A primeira resposta, que me parece a mais verdadeira, é uma pergunta:Como você quer se relacionar com seu bebê?A amamentação em livre demanda é um reflexo da nova dupla que acaba de nascer: a dupla mãe-bebê.

Não dá para quantificar o número de mamadas que um bebê faz no início de sua vida. Como essa amamentação não é ritmada logo após o nascimento, pode ser que um ou dois dias o bebê mame bastante e mame pouco no dia subsequente.

A frequência com que vamos amamentar varia de acordo com as necessidades do bebê. Pouco a pouco ao longo dos primeiros meses, irão tomar um ritmo próprio ao bebe e a nós mesma, essa frequência tem relação com as necessidades do bebe e as nossas necessidades também, por que se trata da relação entre ambos.

A dra Sibylle Escalona: “ as emoções são contingentes, mesmo bebês muito novinhos podem “pegar” as emoções de suas mães”.

2-Então como é a livre demanda?

A livre demanda, na nossa concepção, é: “O aleitamento sem horários rígidos, permitindo os ritmos próprios a mãe e seu bebê de forma que o bebê vá se auto-regulando na alimentação e no sono”.

Isso, não significa que precisamos oferecer o seio a cada chorinho do bebê, embora não tenha nada de errado nisso, por que nas primeiras semanas é bem provável que isso aconteça naturalmente! Ainda estamos aprendendo e nos ajustando um ao outro e não identificamos tão bem os chorinhos do bebê, mas pouco a pouco podemos ir mudando nossa forma de amamentar de acordo com nossos próprios ritmos e necessidades junto ao bebê. Se trata de uma relação, é importante que ela seja impregnada tanto de você, quanto dele!

O grupo Mama explica que: “Livre demanda é dar o peito sempre que o bebê tiver fome, o que não significa que todas as vezes que ele chora, ele está com fome (…). Livre demanda é amamentar sempre que o bebê e/ou a mãe tiverem vontade. Além de que, nos três primeiros meses tudo é novidade para mãe e filho. Esta é uma fase de adaptação mútua, em que o bebê precisa se adaptar à vida fora do útero, pois seu organismo ainda é imaturo, pode ter cólicas, pode precisar de aconchego, de colo, sentir que está seguro aqui como estava lá dentro. Assim, a amamentação em livre demanda é uma continuidade da gestação, onde o bebê era nutrido continuamente. Cada bebê tem uma necessidade diferente, ele pode precisar no começo mamar a cada hora ou mesmo ficar mais de 40 minutos mamando, assim como de uma hora para outra ele pode passar a querer mamar apenas por poucos minutos e menos vezes ao dia.”

Segundo González, há certa confusão sobre a livre demanda que precisa ser percebida: “Muita gente mães, familiares, médicos ou enfermeiras) lê ou ouve isso de livre demanda e pensa: “Sim, claro, não é necessário sermos rígidos com as três horas. Se chora 15 minutos antes, pode-se dar o peito e também não é necessário acordá-lo se está dormindo”. Ou então: “Sim, claro, a demanda, como sempre disse, nunca antes de duas horas e meia nem mais tarde que quatro”. Tudo isso não é a demanda; são só horários flexíveis, que, é claro, não são tão ruins como os horários rígidos, mas continuam causando problemas. Livre demanda significa que em qualquer momento, sem olhar o relógio, sem pensar no tempo, tanto faz se o bebê mamou há 5 horas, quanto se mamou há 5 minutos (…)

Por último, recordar que a livre demanda não só significa dar o peito quando o bebê quer, mas também quando a mãe quer. É claro que as necessidades de um recém-nascido são totalmente prioritárias. Mas, à medida que o bebê cresce, sua mãe tem mais possibilidades de decidir quando dá o peito ou não. Vale ressaltar que um horário rígido é inadequado em qualquer idade e sempre convém que o bebê decida a maioria das mamadas. Mas não há problemas em adiantar ou atrasar um pouco alguma das mamadas.”

3-O bebê pode ser amamentado sempre que sente fome ou sede?

Sim, é quando ele tem fome ou sede que devemos amamentar o nosso bebê, e, pouco a pouco, intuitivamente, sabemos quando eles se queixam de fome, de sede, ou de outras coisas.

Importante lembrar que quando amamentamos, não alimentamos apenas num nível nutricional.

Amamentar não é apenas nutrir seu bebê com alimento. Amamentar nutre seu bebe do toque. Amamentar nutre seu bebe de afeto. Amamentar nutre seu bebe de olhar que sustenta.

Quando amamentamos estamos vivificando a relação de dependência mutua da mãe com seu bebê. Quando desmamamos nos desconectamos mais facilmente de nossos bebes, já que deixamos de ter uma parte dessa conexão direta com eles pois essa ligação fluida termina.

Amamentar é, nesse sentido um continuum da fusão emocional da díade mãe e bebe que se liquefaz muitas vezes em leite.

A fusão emocional

A fusão é essa relação de profunda conexão que acontece entre o bebê e a mãe, desde o ventre. Quando ele nasce, pode se falar em separação, já que a parte física separou-se, porém existe uma outra ligação profunda e de outra ordem. Esse bebê vive como se fosse parte de tudo que constitui sua mãe, todo o campo sutil, emocional, de sua mãe é vivido como parte dele. Então ainda são dois seres em um só, como na gravidez. O leite materno é essa continuação física do que já existe em outros campos.

4-Você pode fazer tudo isso sem amamentar?

Sim, claro que sim, sem duvida alguma podemos. No entanto, sabemos que o fato de estarmos fisicamente conectados aos bebês torna muito mais difícil nos desligarmos emocionalmente deles por muito tempo.

Quando uma mulher amamenta, depois das primeiras semanas de ajuste, pressente quando o bebê vai ter fome. Quantos relatos temos de mulheres que despertam poucos minutos antes do bebê dar seu chamado? Quantos relatos de seios que começam a jorrar leite segundos antes do bebê despertar com fome? Essa conexão é muito importante, e para o bebê é insubstituível.

5-Como permitir a auto-regulação do bebê na livre demanda?

Após esse tempo de ajustes e adaptação à chegada do bebê, nas primeiras semanas, pouco a pouco vamos entrando no ritmo. Quando esse ritmo está fluindo bem, o bebê começa a internalizar sua auto-regulação.

Podemos dizer que, auto regulação, em termos de amamentação, é: quando o peito supre a mamada do bebê de uma maneira orgânica, de tal forma que satisfaz a dupla inteiramente. O peito está “ajustado” com a demanda do bebê; podemos dizer que neste momento o emocional dos dois está em fusão. O peito torna-se o “novo cordão umbical” que liga o bebê à mãe.

Podem acontecer duas situações que interferem um pouco com a auto-regulação de seu bebê:

A)Esperar muito tempo para dar o seio.

Bebezinhos que são obrigados a esperar muito tempo para serem amamentados segundo horários rígidos, não vão vivenciar tão bem a auto-regulação, não internalizam a escuta de suas necessidades básicas, e podem aprender que não possuem controle sobre o que lhes passa.

B)Ter o seio como única resposta a todas suas necessidades.

Isto pode acontecer quando nós nos sentimos compelidas a cada chorinho, ou gemido, oferecer o seio. Quando nós sentimos que é a única forma de acalmar nosso bebê, mesmo se já houve uma mamada efetiva recente e nós sabemos que ele não pode estar com fome.

Talvez no início, quando o bebê é bem pequeno essa seja mesmo a forma de se relacionar, mas é muito importante que, pouco a pouco, com o passar dos tempo, nós possamos escutar mais atentamente os ritmos do bebê e nossos próprios ritmos internos também.
Evânia Reichert, em seu livro “Infância a idade sagrada”, explica que “Cultivar a ética da auto-regulação é confiar na sabedoria instintiva da vida e na certeza de que o ser humano nasce essencialmente bom”.

Para compreender melhor a auto-regulação na amamentação:

Quando amamentamos em livre demanda não nos atemos a relógios, horários, e tempo de amamentação; vamos desde o início, sentindo o ritmo do bebê, seus sinais e percebendo se o bebê está saciado. O leite materno leva em torno de uma hora e meia para ser digerido, antes disso, dificilmente o bebê sente fome. Para nos sentirmos seguras nesse intervalo é bom saber se o bebê teve uma boa mamada e está saciado, por isso abaixo explicamos os sinais da “boa mamada”. Antes disso é preciso lembrar que se a amamentação está fluindo bem sentimos internamente que não precisamos nos fixar por essa informação do intervalo de digestão, pois simplesmente nos entregamos a amamentação sem nos ater ao “fazer tudo certo”.

Os sinais de uma boa mamada
Os bebês dão sinais de que estão conseguindo mamar tudo de que precisam, eles têm imenso prazer em estar saciados, prazer que fica estampado no rosto, no corpo extasiado e relaxado – sentimos que ele está satisfeito. Observamos também se ele adormece profundamente, ou se ele desperta logo em seguida, e o que ele deseja ao despertar.

Uma boa mamada, um bebe satisfeito, um sorriso especial.

Pouco a pouco aprendemos a sentir se é fome que ele sente, se é outra necessidade. Os sinais de desconforto nos bebês são parecidos, mas eles apresentam diferenças sutis, algumas vezes o bebê está apenas cansado, ou irritado com alguma coisa. Alguns bebês choram mais que outros, eles podem nos deixar confusas e exaustas tentando compreender de que eles precisam. Algumas vezes é mais facil se apoiar na intuição do que no nosso universo mental. De início, essa leitura do bebê é um pouquinho incerta, mas respiramos… em pouco tempo nos tornamos as maiores especialistas sobre seus bebês.

L.P. comentou: “Amamentar LD é doar-se por inteiro ao seu filho, deixar que ele mostre o seu ritmo e respeitá-lo em suas necessidades. Um gesto de amor da mãe, de entrega total e uma oportunidade única para perceber as sutilezas do seu comportamento e crescer em afinidade com ele.”

6-Livre demanda não acaba se tornando uma escravidão?

Algumas mães entendem, ou sentem, a livre demanda como uma escravidão, podemos entender que estar ali presente fisicamente e ser constantemente solicitada por ele é desafiador para algumas entre nós. No entanto, se este é o sentimento, podemos desenvolver outro olhar se nos permitimos, pois é a livre demanda que nós dá liberdade: liberdade de decidir. Essa é uma percepção sutil dentro do contexto individual de cada mulher e sua história de vida, mas temos a possibilidade de transformar nossa percepção.

O relógio acaba sendo mais escravizante, por ficarmos controlando o tempo todo tudo o que fazemos e deixamos de fazer. Tentar controlar nos dá uma falsa sensação de saber o que fazer, mas pode nos levar a pôr a perder a naturalidade da livre demanda e a auto-regulação.

Laura Gutman traduz bem essa situação nesse trecho:
“A amamentação falha quando a colocamos dentro dos parâmetros de “melhor alimento”. Quando calculamos, medimos, pesamos ou estamos atentas às quantidades e tempos em que o bebê tomou ou deixou de tomar. Não se trata de pensar no que come. Se trata de estar junto. É algo tão “natural” que esquecemos-o. Porque quase não mantemos relações afetivas de modo simples, sem projetos nem objetivos.”

Prazer e conforto, para um bebê recém nascido, é tudo o que se assemelhe ao útero onde morou por 9 meses. Ou seja, contato permanente, alimento permanente, movimento, calor, ritmo cardíaco, suor, odor e o doce timbre da voz de sua mãe. Se isto acontece, o leite materno flui. Não há mais segredo que o repouso, a disponibilidade corporal, a intimidade e a disposição para ter o bebê “sempre coladinho” durante as 24 horas do dia.”

A pergunta que muitas de nós não quer revelar é: será que estamos preparadas para tamanha disponibilidade? Fomos preparados para alguma disponibilidade? Será que conseguiremos nos deixar levar pelo fluxo natural, e abrir mão da autonomia que nos custou tanto ser conquistada? Queremos mesmo viver isso? Deixar-nos sentir todo o gozo, sentir-nos plenamente entregues a essa experiência?

Podemos sim, nos sentir em algum momento cansadas com a falta de ritmo e previsibilidade da livre demanda com alguns bebês que mamam constantemente. Mas esse cansaço é totalmente físico? Será que não é uma necessidade mais profunda e emocional?

A.M. relata sua jornada de autoconhecimento com a livre demanda: “Quando engravidei pela segunda vez eu decidi fazer LD. Mas não imaginava que seria difícil. Os seios machucaram novamente como da primeira vez, isso colaborou para que eu tivesse medo da LD. Também estava presa em conceitos do tipo que o bebê mama de 3 em 3 horas, tentando de uma certa maneira colocar uma rotina para um bebê tão novo. Os mitos que rondam a nossa cabeça, que o bebê vai ficar mal acostumado, vai ficar dependente, mais a sensação de que aquela situação vai durar a vida inteira, colaboraram para que eu de fato não praticasse a LD. Eu achava que estava praticando, mas não estava. E é claro que o não praticar contribuiu para uma amamentação difícil, onde até dar o complemento eu dei. Essas crenças estavam fortes ainda comigo. Por mais que eu lesse eu ainda não havia internalizado. Daí eu me perguntei: se toda mulher é capaz de amamentar, se toda mulher tem leite suficiente para seu filho, se não existe leite fraco, por que eu não estava conseguindo? Por que? Por que eu não conseguia ser como as outras? Algo impedia, mas o que? Pedi ajuda. A muita gente. Nos grupos de apoio, enfermeiras, doulas, família. Me fizeram perguntas que ajudaram a nortear minha busca. Me deram conselhos e dicas. E daí caiu a ficha. CONTROLE. A grande questão era essa, eu queria ter controle da situação. Faz parte do meu perfil e de como sou ter as coisas “controladas”. Eu não enxergava isso, eu não vi que estava atrapalhando a amamentação. Como consequência, eu não entregava.

Digo mais, penso que isso também pode ter atrapalhado o uso do Sling no começo. Eu não me entreguei ao processo. Não me entreguei de corpo e alma. E quando resolvi me entregar foi maravilhoso. Foi como abrir a gaiola de um passarinho. Me senti livre. E que delícia é a liberdade. Ela passou a mamar, mamar e mamar. A hora que fosse. Dormimos juntas e mamando. Acredito que uma mulher precisa ser cuidada, amada, ter apoio na amamentação. Que ela tenha um tempo de reflexão para descobrir o que impede de amamentar. Essa olhada para dentro de si é tão importante e recompensadora.”

Quando nos sentimos tensas e cansadas com a amamentação precisamos nos perguntar o que está acontecendo. Esse cansaço tem também uma parte da necessidade de espaço para si mesma? Como você pode então conquistar para si espaços sem que com isso deixe de amamentar seu filho, sem ter que controlar o ritmo dele? Será que você se permite ser cuidada, para poder cuidar de seu bebê?

L.C. comenta como era cuidada pela familia: “No comecinho da amamentação, acontecia uma sequência automática: “Flora chorava, eu colocava pra mamar, e aparecia um copão cheio d’água na minha frente. Eu comentei uma vez que quando ela mamava me dava uma seeede. Então era só eu pegar minha filha que alguém corria encher um copo com água pra mim.”

7-O que posso fazer se me sinto infeliz e cansada de amamentar?

Em alguns momentos durante a amamentação nós sentimos oscilar no humor, e no desejo de amamentar. Choramos. Sentimo-nos muito mal. Faz parte do ritmo da amamentação também. Estamos envolvidas com hormônios que fazem nosso humor flutuar e revisando nossa imagem de mãe, os arquétipos que nos habitam. Algumas de nós nos sentimos “presas” ao bebê. Então, se a cada vez que você amamenta se sente sobrecarregada, cansada, sugada, talvez seja hora de se fazer algumas perguntas bem pessoais sobre a chegada de seu bebê em sua vida. Como já foi dito aqui, amamentação é parte de um relacionamento, você tem parte nessa relação. Porque você se sente assim? Será que é realmente tão invasivo amamentar para você? O que você gostaria de mudar? O que você sente que perde. Qual parte da liberdade você sente falta? Se sente isolada? Descuidada? Olhe para si, mergulhe fundo nas suas necessidades que não estão sendo atendidas. Sinta como é revelar-se para si. Procure ajuda para obter essas necessidades. O que mais lhe dói?

Anna Gallafrio :a vida não precisa parar, a mulher não merece ilhar-se, mais do que já está!
A vida segue, o leite desce, ambos são saciedade e amor. (foto de Carolina Bernardes)

 

Amamentação e seu aspecto emocional

É muito importante frisar que a amamentação é parte da nossa relação, se tratamos a amamentação como algo “relacional”, entendemos que nossos ritmos e nossas emoções também têm direito de serem escutados quando amamentamos!

“Atualmente, em especial nas sociedades ocidentais, a amamentação é vista primordialmente como uma forma de alimentar a criança, sob o controle total dos adultos. Assim, perdeu-se a percepção da amamentação como um processo mais amplo, complexo, envolvendo intimamente duas pessoas e com repercussão na saúde física e no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, além de repercussões para a saúde física e psíquica da mãe.” (Elsa Regina J. Giugliano)
Quem amamenta acaba sentindo o tanto que a amamentação é ligada ao nosso emocional, muito mais do que fisiológica, ela perpassa o nosso mundo emocional de tal forma que bebês adotivos podem ser amamentados. Justamente por isso que precisamos cuidar de nossos ritmos, porque os bebês sentem nossos altos e baixos naturais da vida, eles sentem, às vezes, antes mesmo de percebermos em nós.
Nós, antes de tudo, precisamos vivenciar esse aspecto emocional na nossa pele, no próprio corpo. Quando experimentamos esse lado emocional da amamentação na própria mama, finalmente nos entregamos à livre demanda.

Enquanto estamos antenadas a tudo que é negativo, e incerto, enquanto um familiar tece comentários controversos sobre o nosso leite e nos deixamos abalar por isto, não conseguimos “encarnar” a livre demanda. Ficamos fragilizadas, e suscetíveis às crenças de “leite fraco” ou “pouco leite”, então pensamos no “bebê que não engorda”, no bebe que “chora de fome”.

Relato de uma mãe F. P.:

“Isso aconteceu comigo, e foi na terceira filha, eu imaginava que isso só poderia acontecer com alguém inexperiente mas não é bem assim. O nosso mundo emocional pode oscilar de uma hora para outra, e por razões surpreendentes. Eu fui muito ao fundo do poço quando descobri que minha filha no primeiro mês simplesmente não ganhou nada de peso, apenas cresceu. Foi assustador, admito que quase perdi a fé nos meus seios, eu sabia desde o começo que algo não estava fluindo, mas ao me dar conta de que ela tinha o mesmo peso que ao nascer quando completou um mês, eu quase desisti e complementei. Nesse momento eu já estava tendo diversos tipos de ajudas, de consultora, fono e pediatra mas ninguém me deu uma solução clara, uma razão para o que estava acontecendo. Como a pega dela estava correta e podia machucar tanto meu seio? Como ela não engordava se estava o tempo todo no peito? Quanta dor ao amamentar! Justamente eu que já tinha amamentado meus dois filhos mais velhos, como isso ia acontecer comigo? Em algum momento eu tive a sorte de ouvir minha generosa mãe dizer:

-Filha, você é diferente de mim, você amamentou seus filhos, tenho certeza que você vai conseguir amamentar sua caçulinha também!

Por que será que essas palavras confiantes e amorosas tiveram tanto impacto sobre mim? Talvez por eu ser a terceira e ultima filha de minha mãe assim como minha caçulinha é? Talvez eu estivesse revivendo minha historia de bebezinha? Não sei, nunca vou saber de fato o que passou ali naquele mês. Porém estou segura de que justamente por buscar tanto as respostas nos outros é que eu não achava o que eu mais precisava para nutrí-la em todos os aspectos. Minha caçulinha chegou em um momento diferente de minha vida emocional e sua amamentação não poderia deixar de ser influenciada por isso. Foi naquele momento em que me dei conta de que precisava olhar para ela e para mim, de que precisa simplesmente PERMITIR que as coisas fluíssem fosse como fosse, foi só quando me entreguei que tudo foi se encaixando, cada aspecto de minha vida foi para seu lugar certo, meus fihos, meu marido e meu trabalho foram tomando seu lugar na fluidez do meu puerpério, desisti de ter contrôle sobre tudo, desliguei a mente. Logo minha filha e eu estávamos nutrindo uma a outra. Não foi como um passe de magica, foi um lugar emocional que eu precisava visitar para que tudo começasse a seguir seu fluxo natural. Falar sobre isso sempre me emociona mesmo depois de tantos anos, sou muito grata por essa cura que pude viver com minha mãe, eu e minha filha.”

Precisamos nos conectar conosco e como o bebe, ter apoio de pessoas certas, que entendem de amamentação.
Para estarmos mais tranquilas sobre como lidar com a livre demanda e ir colocando nossos próprios ritmos sem, no entanto sermos rígidas com nossos bebes pode ser importante para algumas de nós saber bastante sobre a parte fisiológica e nutricional da amamentação. Entender o que é o primeiro e o segundo leite, saber quanto tempo leva para um bebe digerir todo o leite que mamou. Busque ter essa informação em sites pró-aleitamento ou em grupos de apoio a amamentação.

Por outro lado, precisamos nos entregar, não é pelo conhecimento e controle que vamos amamentar, é pela naturalidade que a amamentação flui.
Algumas vezes sabendo mais sobre os aspectos nutricionais estamos mais tranquilas para intuirmos as necessidades do bebe para além da fome e do leite Materno. Pouco a pouco sentimos quando o bebe está pedindo outra coisa, quando está precisando de outra coisa que não alimento, e aí entra nossa qualidade de presença em dar o que o bebe precisa e não oferecer o seio sempre.
Um bebe pode precisar de muito toque, de ser carregado atentamente, de ser embalado carinhosamente, de estar em contato pele a pele, de uma voz amorosa, do calor de um olhar.
No início é um pouco como ir tentando e sentindo, sem muitas certezas apenas observando. Sugiro não tomarmos nota de horários, e nem marcarmos o tempo em que bebe mamou, porque isso pode gerar algum estresse e atrapalhar nossa intuição, para nos entregar a demanda do bebe o melhor é esquecermos um pouco dos ritmos externos e sentir o ritmo que nós vamos ir criando juntos.
A qualidade de nossa presença que oferecemos ao bebê pode fazer muito mais diferença do que aquilo que lhe oferecemos. Quando um bebê solicita muito, nossa presença pode ficar cansada, e então precisamos pedir ajuda, para que possamos fazer algo que nos faça sentir renovadas, e novamente dispostas a cuidar de nosso bebe.

8- Uma relação de prazer é possível?

No começo amamentar pode doer, e prejudica nossa relação de prazer, mas com apoio correto isso tende a se resolver logo. Quando amamentamos em livre demanda podemos buscar nos conectar com o prazer, é importante ter cuidados consigo e com a relação. Podemos ter uma relação de prazeres com nosso filhote se sempre que cansamos podemos obter o espaço de troca, o espaço de renovação, o espaço de autocuidado.

Quando nos conectamos com a obrigação de amamentar a toda hora, não vamos sentir prazer, sentiremos dever, o dever de amamentar leva-nos a sentir todas as tensões “daquilo-que-você-poderia-estar-fazendo” e “daquilo-que-precisa-ser-feito”.

Sem encontrar o prazer não vamos nos conectar com o bebe, e nenhum dos dois terá a sensação do amor. Sem o prazer, pode acontecer de nos sentirmos obrigadas, ou nos sentirmos esvaziadas, sugadas ou nos sentirmos invadidas ou tudo isso ao mesmo tempo!

A.C. conta sobre sua relação de prazer: “O fato de ela ter ficado quase uma semana na uti, olhei meu peito como uma máquina de produzir leite, pq já tava difícil ficar sem ela no colo, quanto menos pensar na questão de tirar o leite de tres em tres horas pra não secar. Mas, gente, nossos seios são mesmo milagrosos! Ela ficou cinco dias depois de nascer, sem mamar, mas assim que ela mamou na UTI, teve alta no dia seguinte e foi a sensação mais maravilhosa. Já disse uma vez que amamentar é como fazer amor, e hoje ainda repito. São dois corpinhos que se unem e trocam, e não tem como ter hora marcada para isso. Tem que ser gostoso. Tem que ser na hora que uma das duas partes sentir vontade. E a outra também sente e aceita. Nunca olhei no relógio a hora que começa e a hora que termina. Olho nos olhinhos e sei que está satisfeita, pq eu estou também. A safadinha engordou como bezerrinho e me orgulho tanto disso até hoje!”

Esse equilíbrio pode ser alcançado se a cada momento nos prontificamos a rever essa relação, sentir cada mudança que vem acontecendo no bebe e em nós, importante ter alguém que nos ouça, e que compartilhe de nossas crenças e não nos invada com suas próprias percepções. Pode ajudar muito ter alguém para pedir ajuda com os afazeres da casa, ou com os cuidados do bebe a noite após as mamadas para que possamos dormir mais tempo e mais profundamente. Alguém que nós dê o suporte que precisamos para levar essa relação com o bebe de maneira saudável.

Quando estamos bem, estabelecemos uma relação de prazer, onde somos capazes de cuidar desse equilíbrio, nos sentimos satisfeitas com a amamentação, parece que tudo flui melhor, tanto o leite flui melhor quanto nosso amor, flui por todos nossos poros.
C.M.S. “Um fator primordial para que eu continuasse na LD foi a cama compartilhada ( dormir com o bebe). Assim, eu o amamentava quando ele tinha necessidade e conseguia descansar, estando pronta para o dia seguinte, para estar disponível para quando ele quisesse.”

Algumas vezes precisamos também de um tempinho sem o bebe, para uma soneca mais profunda, se nosso bebe já mama bem, está engordando bastante mas nos solicita, chora durante o dia e acabamos dando o seio sempre, pode ser bom pedir para que alguém leve o bebe para uma voltinha. Nesse período precisamos ir descansar e nos cuidar, não vale ir cuidar da casa!

9- Será que vale a pena mesmo a livre demanda? Faz bem ao bebê esse habito?

barriguinha cheia, seio vazio… puro deleite!

Vale apena se deixar fluir na livre demanda por nós mesmas e por nosso bebê. Amamentação é uma linguagem direta de amor, é no leite materno que a criança sente a partilha cuidadosa, a abundância natural e respeitosa, é onde ela plasma essa referência num nível celular.

A doação impregna a criança. Ela sente o profundo respeito pela a abundância generosa, e ela fica impregnada disso por sua vida a fora. Segundo Eleonor Luzes, a amamentação olho no olho, que só acontece com humanos é parte da generosidade natural, é o antidoto do medo da escassez.
Quando nos apoiamos na livre demanda e permitimos ao nosso bebê viver sua auto-regulação, estamos dando espaço ao fluxo natural da vida, é uma “educação” para vida, sua relação com a alimentação, com seu corpo, com seus prazeres. Em toda sua vida ele vai ter essa referência física, emocional e espiritual.

Enquanto ia escrevendo esse texto longo sobre a livre demanda, foi impossível não me sentir um pouco ambígua, me perguntava por que me sentia dividida entre escrever e deixar para lá. Foi quando eu olhei para fora de mim e compreendi:

Beija-flor lá do outro lado da minha janela, e eu aqui escrevendo sobre a naturalidade da amamentação em livre demanda. Tucano lá fora na arvore fazendo barulho com o bico, e eu aqui me perdendo entre imagens de bebes saciados. A vida que segue seu fluxo, e a gente tentando ter controle, descrever, e nomear aquilo que não se nomeia porque se experimenta corporalmente, simples assim. Dessas contradições humanas que me pegam pelo pé e me chacoalham física e emocionalmente. Amamentação em livre demanda acontece quando essa capacidade de viver no momento presente nos permeia como sempre permeia a vida de qualquer outro ser vivo.

Flavia Penido

Colaboração Fabiola Cassab

http://matrice.wordpress.com/

Revisão Josie Zecchinelli

http://www.maternidadeconsciente.com.br/

bibliografia

Eleonor Luzes:

Grupo Mama: http://grupomama.blogspot.com.br/2008/12/livre-demanda.html

Elsa Regina Justo Giugliani: http://matrice.wordpress.com/amamentar-mais-de-um-ano/

Carlos Gonzales: O que é realmente a Livre Demanda. http://vilamamifera.com/blogdocaca/livre-demanda-o-que-e-realmente-dr-carlos-gonzalez/

Carlos Gonzales; Os gases e as cólicas, em Un regalo para toda la vida- Guía de la lactancia materna

Aletha J. Solther , The aware baby

Laura Gutman, http://vilamamifera.com/bebedubem/disponibilidade-para-amamentar-por-laura-gutman/

Evania Reichert, A infância e a Idade Sagrada;

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